Grafiteiros – muralistas modernos

13 de Março de 2013
Tendências

Em meados de fevereiro de 2013, uma notícia correu o mundo e assombrou os desavisados: Um pedaço do Muro de Berlim, medindo 3,3mX2,5m e grafitado pelo brasileiro Nunca foi a leilão pela casa Pierre Bergè e Associados, no Palais de Tokio, Paris. Em 2011, o grafiteiro foi convidado a pintar duas seções do muro de Berlim. O artista escolheu representar um gigantesco punho que quebra o muro em vários pedaços. Cada peça foi avaliada em 350 mil euros e teve como lance inicial: 250mil euros, aproximadamente R$ 653 mil. Nunca, que começou a fazer grafites nas ruas de São Paulo aos 12 anos, é dono de um estilo pessoal inspirado nas tradições indígenas do Brasil. Aos que ainda acham que o grafite não é arte, esta pode ser a hora para rever seus conceitos.

O grafite surgiu na década de 70, em Nova York, mas suas raízes podem estar conceitualmente fincadas no México. Por volta dos anos 1920 e 1930, surgiu o movimento muralista com nomes como, Clemente Orozco (1883-1949), David Siqueiros (1896-1974) e Diego Rivera (1886-1957), que inspirados pela revolução mexicana usavam os muros de prédios públicos para fazer arte com forte conteúdo social e político. O grafite nova-iorquino retomou a tradição e se lançou ao mundo, mantendo o mesmo cunho de protesto e questionamento.

Arte essencialmente urbana, o grafite consiste em intervenções visuais feitas em espaços públicos para expressar o ponto de vista do autor sobre a vida em forma de desenho. No Brasil, a arte ainda considerada marginal, ou underground, desembarcou no final da década de 1970 pelas mãos de Alex Vallauri, que criou personagens utilizando estêncil, imagens criadas a partir de um molde e tinta spray. Hoje, nomes como Kobra e Titi Freak estão associados à vanguarda da arte contemporânea mundial com obras expostas em galerias e centros culturais de renome como o CCBB, que em 2011, realizou uma exposição com o trabalho de Os Gêmeos.

Para ajudar você a entender melhor o mundo do grafite, o Blog do Casa preparou uma seleção dos principais nomes da cena nacional e mundial, além de um glossário com os termos e as técnicas mais usadas pelos grafiteiros.

1– Jean-Micahel Basquiat

Quando: 1977
Onde: Brooklyn (Nova York)

1 - Basquiat

Estilo: Em 1977, Basquiat junto com seu amigo Al Diaz resolveram grafitar os prédios abandonados de Manhattan. Os desenhos feitos por Basquiat tinham símbolos de variadas culturas, referências a obras famosas e uma tendência neo-expressionista. Suas pinturas eram inseridas em um contexto político e social e, também, em suas preocupações como, o genocídio, a opressão e o racismo. Sua assinatura SOMO ou SAMO shit (A mesma m… de sempre) complementava a crítica social. Para Basquiat as pessoas eram muito ligadas ao material, quando deveriam estar mais ligadas ao espiritual. Morreu em agosto de 1988, vítima de overdose de heroína. Além de deixar uma vasta produção, ele é considerado o percursor da popularização do grafite.

2 – Alex Vallauri

Quando: Final da década de 1977
Onde: São Paulo

2 - Alex Vallauri

Estilo: Foi um dos primeiros artistas do grafite no Brasil. Para Vallauri, o grafite é uma arte para todos. Sem se limitar aos muros, ele criou adesivos, camisetas e bottons com técnicas que usam o estêncil, imagens criadas a partir de um molde vazado e muita tinta spray. Um de seus trabalhos mais emblemáticos foi feito a partir do grafite de uma bota preta, de salto fino e cano longo. O desenho ficou no anonimato, pois ele não assinou a obra. Depois, enviou para amigos e artistas postais manufaturados, cópias de catões postais com edifícios históricos da cidade e um carimbo da bota sobreposto com frases sobre a invasão da cidade pela grande bota. Participou de duas bienais de São Paulo, sempre com trabalhos relacionados às intervenções urbanas por meio do grafite. Vallauri morreu em 1988.

3 – Keith Haring

Quando: 1978
Onde: Nova York

3- Keith Haring

Estilo: Antes de tomar de assalto os muros e paredes dos prédios de Nova York, Keith Harring foi estudante de design gráfico, em uma universidade de Pittsburgh. Mas antes de concluir o curso, mudou-se para Nova York, onde começou a se interessar pelo grafite. Passou a frequentar School of Visual Art onde tomou contato com vários grafiteiros. Seus trabalhos começaram a ser reconhecidos nos desenhos feitos com giz nas paredes das estações de metrô. Considerados eróticos, Keith abordava temas como homossexualidade e prostituição. No entanto, um de seus mais conhecidos trabalhos, The Radiant Baby tem forte influencia cristã, e trata da figura de Jesus Cristo ainda bebê. Haring morreu em 1990 e seus grafites ainda são grande influência no mundo por sua energia, poder e movimento.

4 – Daim

Quando: 1992
Onde: Alemanha

4 - DAIM

Estilo: Suas figuras e letras obedecem às leis de luz e sombra, mas desafiam as leis da gravidade e espaço. Ele une o grafite real com o método virtual em uma técnica chamada de NextWall. Em 1995, ele e outros artistas criaram o mais alto grafite do mundo, em Hamburgo, Alemanha. Em 2001, o Fundo das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) o convidou para um projeto no Brasil, em São Paulo, chamado Tagged Motion, onde une o grafite real com o método virtual, tornando-se uma das maiores referências do mundo.

5 – Banksy

Quando: Final da década de 1980
Onde: Bristol e Londres (Grã-Bretanha)

5 - Banksy

Estilo: Expõe seus trabalhos em lugares públicos, pois eles fazem críticas ao governo. Claramente, Banksy demonstra sua aversão à autoridade e ao poder. Ele utiliza spray para fazer seus grafites nas paredes da cidade. Figura reclusa, sua identidade nunca foi revelada ao mundo. Seus trabalhos inspiraram um documentário que em 2011 concorreu ao Oscar. Uma de suas obras mais polêmicas é a dos dois policiais se beijando e trouxe à tona a questão da homossexualidade nas instituições públicas.

http://www.banksyfilm.com/index.html

6 – Os Gêmeos

Quando: Final dos anos 80
Onde: São Paulo

6 - Os gêmeos

Estilo: Os irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo, mais conhecidos como os Gêmeos, são os grafiteiros brasileiros mais conhecidos dentro e fora do país. Seus grafites são carregados de críticas sociais e as representações humanas têm a pele amarelada e estão envolvidas em situações inusitadas e fantasiosas. Seus trabalhos já ganharam o mundo e eles já grafitaram palácios, casas e castelos.

7 – King Robbo

Quando: Meados de 1980
Onde: Londres (Grã-Bretanha)

7 - King Robbo

Estilo: Seu trabalho mais emblemático foi no Natal de 1985, quando grafitou “Feliz Natal” em uma composição de trens do metrô de Londres. O feito, visto com simpatia pelo público, que gostou de ver o cinzento metrô com um toque de humor e cor, e com desconfiança pelas autoridades, rendeu mídia mundial. Depois disso, seu trabalho é visto nas ruas de Londres, em trens e paredes, sendo a maioria subterrânea. Em 2009, entrou em uma polêmica com Banksy que foi chamada de “a guerra do grafite”. King Robbo acusou Banksy de sobrepor suas obras com novos desenhos. Depois disso, eles começaram a sobrepor o grafite um do outro.

8 – Belin

Quando: 1995
Onde: Linares (Espanha)

8 - Belin

Estilo: Em Andaluz de Linares, uma cidade de pouco mais de 55 mil habitantes, Belin trabalha com uma mistura de realismo, caricatura e surrealismo. As características únicas de seu estilo estão na qualidade fotográfica de seus personagens em 3D e na expressão dos rostos. Em 2004, foi reconhecido em seu país ganhando o prêmio de jovem artista. Ele já expôs em vários países, inclusive no Brasil.

9 – Edgar Mueller

Quando: 1984
Onde: Mülheim (Alemanha)

9 - Edgar Mueller

Estilo: Com o propósito de instigar o olhar, Edgar Mueller cria cenas inusitadas em meio à paisagem urbana através da técnica de pintura 3D anamórfica. Seus grafites têm perspectivas realistas, por exemplo. Em agosto de 2008, no Festival de Cultura Mundial, ele desenhou no asfalto da cidade Dun Laoghaire, Irlanda, a obra “The Crevasse”, uma geleira em pleno asfalto. Clique no link e veja o making of de Mueller desenhando “The Crevasse”.

http://migre.me/dqMeg

10 – Smug

Quando: 1996
Onde: Glasgow (Escócia)

10 - Smug

Estilo: O controle diferenciado do spray feito por Smug torna seus grafites foto-realistas diferentes. Suas pinturas abrangem diversos temas e, mesmo tratando de um assunto desconfortável, ele é capaz de produzir desenhos fantásticos. Seus trabalhos mais populares são as pinturas de belas mulheres, cenas bizarras e de sua participação no festival See no Evil, em Bristol, que reúne os melhores artistas de rua do mundo para criar uma enorme galeria ao ar livre.

11 – Eric Grohe

Quando: 1973
Onde: Washington (Estados Unidos)

11 - Eric Grohe

Estilo: Sua arte é feita para envolver, desafiar e inspirar o espectador. Para isso, Grohe utiliza uma tinta com minerais, assim a pintura cristaliza-se em substratos minerais e não irá desaparecer, garantindo permanência e eficácia. Um de seus maiores trabalhos foi a restauração de dois lados de um edifício da Real State Corporation, que já foi uma fábrica de roupas, em Ohio. Com o intuito de manter a integridade arquitetônica do edifício original, os detalhes de tijolo e terracota foram reproduzidos em pintura nas fachadas. Elementos clássicos de arquitetura, escultura e um arco de entrada de 50 metros de altura foram concebidos para melhorar a estrutura.

12 – Kurt Wenner

Quando: 1984
Onde: Michigan (Estados Unidos)

12 - Kurt Wenner

Estilo: Kurt iniciou sua carreira trabalhando para a agência espacial norte-americana (NASA), desenhando projetos espaciais e paisagens extraterrestres. Depois, decidiu mudar-se para a Itália e estudar arte clássica renascentista. Em 1984 começou a criar composições que pareciam cair no chão. O uso da perspectiva anamórfica e a transformação do classicismo renascentista em arte urbana 3D o fizeram pioneiro desta técnica. Seus trabalhos mais conhecidos são “O juízo final” e a campanha publicitária para a vodca Absolut. A pintura de rua feita por ele foi considerada arte sacra, depois que foi incumbido de criar uma imagem sobre pavimento em Mântua, na Itália, para receber o Papa João Paulo II, que teve como tema o juízo final. Para criar a cena, ele contou com a ajuda de 30 grafiteiros europeus que trabalharam durante 10 dias.

13 – Eduardo Kobra

Quando: 1987
Onde: São Paulo

13 - Eduardo Kobra

Estilo: Na periferia de São Paulo, em 1987, Kobra começou a fazer seus primeiros grafites. Hoje, é um fenômeno da arte brasileira de neovanguarda e faz pesquisas com materiais reciclados, novas tecnologias e trabalhos em 3D. Um de seus grafites mais recentes está na parede lateral do edifício Ragi, no início da Avenida Paulista: uma homenagem ao arquiteto Oscar Niemeyer, falecido em dezembro do ano passado, medindo 52 metros de altura. Junto com o retrato, ele faz referências às grandes obras do arquiteto, como o Palácio do Planalto e a Pampulha.

14 – Dondi

Quando: Inicio dos anos 70.
Onde: Brooklyn (Nova York)

14 - Dondi

Estilo: Dondi é pioneiro em alguns estilos e técnicas utilizadas pelos grafiteiros modernos como, o wildstyle, que entrelaça e sobrepõe letras e formas, incluindo elementos decorativos e inúmeras camadas. Um de seus trabalhos mais conhecidos é o Children of the grave, um tríptico pintado em vagões de metrô na cidade de Nova York.

15 – Aryz

Quando: 2004
Onde: Barcelona (Espanha)

15 - Aryz

Estilo: Os temas decadência e deterioração são marcas nos grafites de Aryz, que estão por vários lugares em Barcelona, onde começou pintando em paredes de fábricas e imóveis em ruínas. O grafiteiro elabora pinturas conceituais e surrealistas gigantes, utilizando tinta spray, pincéis e rolos de pintura. Em um de seus trabalhos mais conhecidos, Aryz fez parceria com Os Gêmeos na elaboração um mural no festival Urban Forms Gallery, na Polônia.

Vocabulário utilizado pelos artistas de rua:

  • 3D – Estilo tridimensional, baseado em um trabalho de brilho/sombra das letras.
  • Asdolfinho – Novo estilo de grafite desenvolvido por norte-americanos no qual é visada a pintura animal.
  • Background – Fundo de um piece ou de uma produção.
  • Backjump – Grafite realizado enquanto a composição do metro pára numa estação.
  • Bite – Cópia, influência direta de um estilo de outro autor.
  • Biter – É aquele que copia o desenho ou até mesmo o estilo dos outros.
  • Bomb – Grafite rápido ou ilegal, geralmente feito à noite.
  • Bomber – quem faz o bomb.
  • Bombing – Sair pra fazer grafite ilegal.
  • Bubble style – Estilo de letras arredondadas, mais simples e “primárias”. Ainda é muito utilizada no grafite.
  • Cap – Cápsula aplicável às latas para a pulverização do spray. Existem variados caps, que variam a pressão, originando um traço mais suave ou mais grosso (ex: ”Skinny”, “Fat”, “NY Fat Cap”, etc.).
  • Characters – São os personagens presentes nos murais que podem ser retratos, caricaturas ou bonecos.
  • Crew – Equipe ou grupo de amigos que habitualmente pintam juntos e que todos usam o mesmo nome. É regra geral os grafiteiros assinarem o seu tag e a qual crew pertencem (normalmente sigla com duas a quatro letras) em cada obra.
  • Cross – Pintar um grafite ou assinatura por cima de um trabalho de outro grafiteiro.
  • Dégradé – Passagem de uma cor para a outra sem um corte direto. Por exemplo, uma gradação de diferentes tons da mesma cor.
  • End to end – Composição de vagões de metrô pintado de uma extremidade a outra, sem atingir a parte superior do mesmo (por ex. as janelas e parte superior do comboio não são pintadas).
  • Fanzine – Uma mini revista de grafite, sem fins lucrativos, apenas pra divulgar e divertir.
  • Fill-in – Preenchimento (simples ou elaborado) no interior das letras de um grafite.
  • Hall of fame – Trabalho, geralmente legal, mais trabalhado realizado por mais de um grafiteiro, explorando as técnicas mais evoluídas.
  • Highline – Contorno geral de todo o grafite.
  • Hollow – Grafite ou Bomb que não tem fill-in (preenchimento).
  • Inline – Contorno realizado na parte de dentro das letras.
  • King – Grafiteiro que adquiriu respeito e admiração dentro da comunidade do grafite. Um status que todos procuram e está inevitavelmente ligado à qualidade, postura e anos de experiência.
  • Outline – Contorno das letras cuja cor é aplicada igualmente ao volume das mesmas, dando uma ideia de tridimensionalidade.
  • Piece – Grafite feito por um writer, com mais de três cores.
  • Roof-top – Grafite aplicado em telhados, outdoors ou outras superfícies elevadas. Um estilo associado ao risco e ao difícil acesso, mas que é uma das vertentes mais respeitadas entre os grafiteiros.
  • Spot – Denominação dada ao lugar onde é feito um grafite.
  • Stickers – Adesivos que foram produzidos e tageados antes.
  • Tag – Nome/Pseudónimo do artista.
  • Tagging up – Tagear algum lugar difícil.
  • Throw-up – Estilo situado entre o “tag” /assinatura de rua e o bombing. Letras rápidas normalmente sem preenchimento de cor (apenas contorno).
  • Toy – Inexperiente, iniciante ou que não consegue atingir um nível de qualidade e respeito dentro da comunidade.
  • Train – Denominação de uma composição de metrô pintada.
  • Whole train – Vagões de metrô ou trem inteiramente pintados de ponta a ponta e de cima a baixo.
  • Wild style – Estilo de letras quase ilegível. Um dos primeiros a ser utilizado no surgimento do grafite.
  • Writer – Escritor de grafite.
  • Spot – lugar onde é praticada a arte do grafite.

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