Entrevista Carlos Motta

16 de Junho de 2014
Tendências

A convite da loja Hill House, o designer paulista Carlos Motta esteve no CasaPark para falar com profissionais e estudantes de arquitetura, design e design de interiores. Responsável pela criação de peças que se tornaram ícones do design brasileiro, como as cadeiras São Paulo, de 1982, e a Rio, que marca presença na Praça de Alimentação do Marietta Italia Caffè do CasaPark, Carlos Motta tem na ecologia e no respeito à natureza os pilares de seu trabalho. Em sua passagem por Brasília, o designer falou ao Blog do Casa sobre estilo, estética, reciclagem, carreira e o uso da madeira, uma de suas marcas registradas.

Blog do Casa – Você considera que a aplicação dos três erres – reduzir, reciclar e reutilizar – na sua linha produtiva é, de certa forma, um ensinamento para a geração futura tanto de profissionais quanto de consumidores?

Carlos Motta – É uma realidade, é algo que vivencio diariamente e tento passar para os outros da forma mais consistente possível; é fundamental e a base do meu trabalho.

BC – A união da estética com a natureza, que acontece no seu trabalho, é parte da sua compreensão de mundo? Como você mantém essa identidade?

CM – Ela é tão intuitiva e natural, é tão forte, que não tem como escapar. Acabo vivendo e respirando essa união, ela participa da minha vida o tempo inteiro, então é natural que traga isso para o meu trabalho.

BC – Em entrevista ao Estadão você afirmou que a cadeira “São Paulo” é admirada também pela sua honestidade. O que o termo significa em relação às suas criações?

CM – Minhas peças são utilitárias, ou seja, a cadeira, cama e poltrona são feitas para uso diário. O processo todo, da concepção à fabricação, é digno e coerente com aquilo tudo em que acredito: matéria-prima correta, madeira reutilizada ou certificada, menos insumos industriais, pois causam muito impacto ao meio ambiente, ergonomia mais correta, melhor relação entre objeto e corpo humano e técnica construtiva adequada, tudo para que essa peça seja longeva. Meu trabalho envolve responsabilidade ambiental e social também, todo mundo que faz parte da cadeia produtiva participa do lucro. Por isso digo que é um trabalho honesto.

BC – A escolha da madeira como principal matéria-prima das suas obras tem algum motivo especial?

CM – Sim. Para mim e para todos aqueles que trabalham com esse tipo de matéria-prima. Cada madeira carrega uma qualidade, uma tem o acabamento maravilhoso, outras têm uma melhor flexão, outras, melhor envergadura. Hoje está difícil escolher madeira pela qualidade, pelo cheiro e pela cor, pelo momento crítico que atravessamos. Então, a maior qualidade que vejo é se ela é reutilizada ou certificada. Esse tipo de madeira agrega valor ao produto, ao design e tem correspondido bastante às minhas expectativas.

BC – Tem algum tipo de madeira com a qual você não trabalhou, mas quer utilizar um dia? Por quê?

CM – Não trabalhei com inúmeras que eu adoraria utilizar, mas não é uma coisa fácil. No momento, estou trabalhando com a peroba rosa de demolição.

BC – Qual a sua visão em relação à sua carreira após 30 anos?

CM – Acho que ela evoluiu de uma maneira muito coerente, manteve seus valores, conceitos, se desenvolveu de forma bastante interessante, não virou uma empresa chata, careta e caiu na vala comum. Tudo começou de uma forma muito avessa. Naquela época, eu era muito hippie, vivia a contracultura, o yoga, o arroz integral, a maconha. Hoje não, a contracultura, focada principalmente nas transformações da consciência, dos valores e do comportamento, é uma coisa básica, real e inexorável se as empresas quiserem sobreviver. Ecologia e respeito à natureza pulsam em nossas veias. Está na gênese e no DNA do ateliê a responsabilidade ambiental e social. Causar o menor impacto possível em nosso planeta e saber dividir o resultado financeiro com todos aqueles que fazem parte da cadeia produtiva nos motivam a existir e a trabalhar na busca da excelência.

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