A obra brasiliense de Zanine

20 de Setembro de 2019
Notícias

Por volta de 30 casas espalhadas pelo Distrito Federal são assinadas pelo arquiteto e trazem para a cidade exemplos da inovação com madeira característica do artista 

 

No ano em que comemoramos o seu centenário, Zanine Caldas continua a  impressionar pelo legado que deixou. Brasília conta com importante parte do trabalho do arquiteto, que também foi paisagista, maquetista, escultor e designer. Na cidade, existem cerca de 30 casas que contam em cada rico detalhe de suas estruturas de madeira o valor que Zanine tem para a arquitetura nacional. Ele chegou a Brasília no final da década de 1950 a convite de Darcy Ribeiro para trabalhar na UnB como instrutor de maquetes. 

 

         As casas

         A mestra em arquitetura Giselle Chaim escreveu sua dissertação de mestrado sobre o período que Zanine passou em Brasília. Giselle relata que a primeira casa projetada por Caldas foi para si mesmo em 1963. A casa de perfil simples remete a uma sede de fazenda e faz referência à arquitetura colonial. Das características marcantes de Zanine presentes no projeto, temos a proximidade com a natureza e o uso de materiais de demolição, que ele trouxe do Rio de Janeiro e de São Paulo.

         Por conta do golpe militar de 1964, Zanine teve que deixar o seu cargo na UnB e sair de Brasília. Ele também vendeu a casa que havia construído para si. Mesmo sem morar na cidade, ele continuou a trabalhar em projetos locais.  O novo dono solicitou que o arquiteto fizesse um projeto para ampliação. Segundo Chaim, Zanine conseguiu promover as alterações mantendo a mesma estética do projeto original. A casa é mantida até hoje pelo mesmo dono, que preserva toda a arquitetura original.

Outra casa construída por Zanine Caldas que também tem sua arquitetura preservada pertence à família Bettiol. A artista plástica Betty Bettiol diz que morar em uma casa projetada e desenvolvida pelo arquiteto é uma alegria que se renova a cada dia. “A casa é confortável, acolhedora, boa de estar nela, de ficar nela, de voltar para ela. Quando estou fora, sinto falta”, diz. Betty ainda faz questão de ressaltar que Zanine não apenas projetou uma casa, mas também desenhou um lar para uma família que estava se formando, e o fez tal como o casal solicitou.

         “Conhecíamos o Zanine e seu traço. Sabíamos o que queríamos e o que podíamos esperar: muita madeira, amplas varandas, grandes telhados antigos, pé direito alto e módulos bem definidos”. O casal Bettiol faz questão de dizer que a casa foi feita na medida certa e que nada no projeto foi alterado desde a sua construção em 1974.

Em uma das casas projetadas por Zanine, funciona desde 2013 o escritório da arquiteta Valéria Gontijo. A casa foi adaptada à realidade do escritório, mas mantendo a essência do projeto original. Como relata o arquiteto Celestino Neto: “A gente tem toda uma estrutura de trabalho distribuída pela casa. Os quartos principais ficam com as pessoas que comandam o escritório, no salão temos pessoas trabalhando, a sala de jantar virou uma sala de reuniões, a cozinha é nosso refeitório”. 

Celestino diz que, como arquiteto, é muito significativo poder ter contato diário com uma das obras de Zanine Caldas, com tempo para perceber cada detalhe. “É uma questão de observar a arquitetura, observar que ele tinha uma relação de espaço que não era de tentar chegar a uma forma perfeita, mas de pensar em como as pessoas iriam viver naquele espaço”, explica. Cada cômodo da casa foi projetado de acordo com sua função. Se por um lado a sala é ampla e iluminada, os quartos foram desenhados para serem espaços mais íntimos e aconchegantes. 

 

O ousado e o tradicional

         Na contramão da ousada arquitetura brasiliense, Zanine trazia nos projetos das suas casas um resgate da arquitetura tradicional. Como conta Giselle Chaim: “Ele trazia esse lado mais brasileiro, esse lado do interior, do colonial, do mineiro e do baiano pra cá”. Os projetos de Zanine se destacavam por serem diferentes de tudo que Brasília representava. Por um lado o trabalho do arquiteto trazia módulos estruturantes e composições arquitetônicas totalmente modernos, por outro há o uso de materiais rústicos, referência a um estilo mais tradicional e colonial.

         O contraste entre as casas de Zanine e a arquitetura da nova capital se deu principalmente porque se as casas do arquiteto eram feitas de madeira, o que cria um clima de aconchego e remete às cidades do interior do país, Brasília estava nascendo com uma arquitetura moderna e à frente de seu tempo, marcada pelo concreto armado, que parecia suspenso no ar, e as linhas sinuosas desafiadoras das leis da física.

        Essa referência ao tradicional em sua obra era o que o fazia ser tão procurado em Brasília. Os novos moradores que chegavam à cidade queriam algo que os fizesse lembrar do lugar de onde vieram. Zanine trouxe para o meio do concreto branco o aconchego da madeira.

As casas da capital do país são apenas parte do patrimônio deixados pelo arquiteto. Zanine Caldas, arquiteto autodidata, ficou para a história como um dos maiores arquitetos do Brasil. Seu trabalho é notável e continua a ser lembrado por pessoas que estudam sua Arte, Arquitetura e por aqueles que têm a oportunidade de ter contato mais próximo com as suas casas brasilienses.

 

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